Relicário Mais   

A coragem da verdade na literatura e na vida vivida

 

Claudio Cardoso de Paiva
07.02.2026

O livro ‘A Travessia do Desejo’, de Henrique Magalhães (Ed. Marca de Fantasia 2026, em formato e-book), é uma obra importante, primeiramente porque constrói, de maneira original, uma memória afetivo-sentimental da cidade de João Pessoa nos anos 60/70. Em seguida, porque desnuda, em linguagem sincera e acessível, uma dimensão intimista do gênero masculino, uma visão do outro lado do patriarcado. E enfim, porque serve como dispositivo de subversão necessária aos ‘mil anos’ de repressão sexual pesada sobre os homens e mulheres.

Trata-se de uma narrativa com matizes pessoais de um relato com as marcas do ‘romance de formação’, acompanhando a trajetória de um personagem fictício e sua relação com os pais e a família de seis filhos. Logo, percebemos uma escritura que contempla o clássico ‘conflito de gerações’, onde se distingue o pai distante, altivo, autoritário e a mãe amorosa, dedicada e acolhedora. Mas, sobretudo, projeta um universo de pessoas simples e a saudável convivência entre os familiares.

Retrata um mapa mental e reflexivo sobre a cidade nos anos 60/70, onde a bodega, a mercearia, a praça, a escola e a igreja constituem os espaços básicos de afeto e socialização num ambiente pré-moderno, em que as relações pessoais e presenciais – para o melhor e para o pior - se faziam diferentemente de nossa época marcada pela mediação tecnológica.

Hoje, quando assistimos ao trânsito de “pequenas revoluções” e transformações “micropolíticas”, notadamente a partir do movimento antirracista e o movimento das mulheres, há uma terceira margem da experiência sociocultural e política, encarnada pelos atores gays, LGBTQIA+ ou simplesmente movimento de luta dos homossexuais. Mas no livro as mutações se fazem não pela convocação às bandeiras de luta, partidárias ou institucionais, contra a opressão machista, patriarcal e religiosa. Caberia citar o poeta Caetano Veloso, o livro ‘presta’ – também - por relembrar que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

A singularidade do ‘livreco’ de Henrique Magalhaes consiste em seu aspecto referente à ‘Coragem da Verdade’, e à atitude do seu personagem com relação às “amizades particulares”. É forte ao se assumir como sujeito-cidadão consciente de seu próprio desejo e à disposição para realizá-lo. Assim, o trabalho consiste em uma “verdade seduzida” que leva o leitor a vislumbrar o modo de ser do outro, como uma “estilística da existência”, que lhe é diferente, mas que pode e deve ser aceita, pela maneira sincera, natural, leve e bonita como é exposta.

O livro ‘A travessia do desejo’ deve ser visto como um sólido tijolinho na construção simbólica de uma experiência masculina livre das amarras e dos preconceitos, tornando a convivência com a diferença, a alteridade, a outridade, de maneira mais saudável, harmônica e equilibrada.

Acesse o livro aqui: A travessia do desejo


Marca de Fantasia
Março de 2026
Editor: Henrique Magalhães
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