HQs de humor no Brasil:
variações da visão cômica dos quadrinhos brasileiros (1864-2014)


Roberto Elísio dos Santos
Porto Alegre: EDIPUCRS, 2014, 127p.
(Comunicação e Inovação, 4)

Disponível aqui

Prefácio

Prof. Dr. João Batista Freitas Cardoso
Programa de Pós-Graduação em Comunicação
da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS)

Não faz muito tempo – e isso nós leitores de histórias em quadrinhos sabemos – as HQs eram vistas com certo preconceito pelo meio acadêmico. De modo geral, as “revistinhas” eram consideradas um tipo de produção cultural inferior destinada a um público infantojuvenil alienado. No final do século XX, pesquisadores de diferentes centros de estudos pleitearam por espaços nas universidades pelo que entendiam ser um tipo específico de produção artística que atravessava os diversos sistemas sociais e culturais. Nesse contexto, surgiu em 1999, na Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA), o Observatório de Histórias em Quadrinhos. De lá pra cá, não só nos estudos do Observatório da ECA, mas também no interior de muitos programas de pós-graduação em comunicação, observa-se o desenvolvimento de pesquisas que buscam compreender os variados gêneros de histórias em quadrinhos (aventura, terror, humor etc.) em suas relações com a sociedade e produções culturais – como, por exemplo, os quadrinhos na sala de aula; as transposições de histórias em quadrinhos para o cinema e televisão; o uso de elementos das histórias em quadrinhos na comunicação mercadológica; o licenciamento de personagens de histórias em quadrinhos em produtos diversos.

Na presente obra, Roberto Elísio dos Santos evidencia as inovações narrativas e estéticas nos quadrinhos de humor brasileiro desde o tempo do império até os dias de hoje. Ao trilhar rotas não muito comuns entre autores, publicações e períodos, Santos nos mostra a riqueza e variedade de estilos cômicos que caracterizam uma identidade genuinamente brasileira.

Mais do que uma simples forma de entretenimento, o humor em quadrinhos desvela certas práticas sociais, culturais e políticas, cobertas pelos mecanismos disciplinares de poder, colocando em relevo as fraquezas e imperfeições dos sujeitos e das sociedades. Ao delinear de maneira crítica os contornos de grupos sociais, o humor em quadrinhos permite compreender as tensões entre os mecanismos de controle e as forças de resistência; entre as normas impostas e a acrasia; entre os comportamentos de submissão e transgressão. Nesse sentido, atuam como um tipo de expressão cultural popular que objetiva, ao satirizar os grupos dominantes, trazer à luz as adversidades que nos cercam.

Ao combater de forma crítica e irônica as injustiças humanas e sociais, o humor gráfico assume um papel social de destaque na cultura midiática. Por meio de charges, cartuns e histórias em quadrinhos, os artistas apresentam sua visão de mundo. E, mais do que isso, como fonte de informação dos acontecimentos sociais e políticos de uma era, muitas das produções de humor gráfico funcionam como agenda de temas a serem abordados pelos meios de comunicação de massa. Nesse sentido, o progresso dos quadrinhos de humor no Brasil pode ser verificado na oposição explícita ao regime ditatorial imposto nas décadas de 1960 e 1970, assim como nas críticas feitas ao sistema político nacional – antes, durante e depois do regime militar.

Paralelo ao engajamento político, aspectos negativos do comportamento do cidadão e da família brasileira também foram alvo das farpas do humor em quadrinhos. As atitudes, hábitos e comportamentos padrão da sociedade são apresentados de forma risível e caricatural. O objetivo dessas produções, conforme Santos, é denunciar a hipocrisia que domina as famílias de uma classe média burguesa. Nesse contexto, não apenas os políticos são ridicularizados, mas também o pai de família, o líder religioso e, até mesmo, o jovem intelectual boêmio, leitor das próprias revistas. Ao rir de si mesmo, e do mundo que o cerca, o leitor de quadrinhos de humor acaba por refletir sobre as contradições e incoerências da sociedade.

Por fim, Santos mostra que, neste século, os quadrinhos de humor parecem não mais se contentar apenas com o riso – seja ele ingênuo ou crítico. As reflexões sobre temas sociais e existenciais dos chamados “quadrinhos poético-filosóficos” trazem à tona a discussão sobre a função dos quadrinhos na sociedade contemporânea. Do mesmo modo, o texto a seguir não tenciona levar o leitor ao riso, mas sim fazer com que reflita sobre a importância do riso em nossas vidas.



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Janeiro de 2019

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