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Se Toque: uma revista alternativa

Humor em pílulas: a força criativa das tiras brasileiras
Henrique Magalhães
Série Quiosque nº 16.
João Pessoa: Marca de Fantasia, 2006. 112p. 12x18cm. R$15,00.
ISBN 85-87018-63-9

O humor esteve na gênese dos quadrinhos, que surgiram em várias partes do mundo com a disseminação da imprensa, em meados do século XIX. Fazendo sátiras políticas e de costumes, algumas séries e personagens se tornaram célebres e foram referências para outras criações, a exemplo de Monsieur Vieux-Bois , do suíço Rodolphe Töpffer, em 1927, de Max und Moritz , do alemão Wilhelm Busch, em 1865, dos Katzenjammer Kids ( Sobrinhos do Capitão ), do norte-americano Rudolph Dirks, em 1897 e de As aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma viagem à Corte , do ítalo-brasileiro Angelo Agostini, em 1869. No entanto, foi com a criação de Mutt & Jeff , por Bud Fisher, em 1907, que as histórias em quadrinhos humorísticas ganharam seu formato preferencial, as tiras diárias, predominante até hoje.

A criação das tiras, publicadas regularmente nos jornais, impulsionou a massificação dos quadrinhos por intermédio dos syndicates , as distribuidoras norte-americanas, que passaram a exportá-las para todo o mundo. A compilação das tiras deu origem aos comic books , ou revistas em quadrinhos.

Se por um lado os syndicates ajudaram a propagar as histórias em quadrinhos pelo mundo, por outro foi um fator inibidor das expressões locais, pelo poder de massificação que engendram, oferecendo um produto de muito baixo custo. A imprensa brasileira se dobrou a essa força sedutora da indústria cultural, disponibilizando aos leitores uma plêiade de personagens já famosas em sua terra de origem. Junto com as personagens, um esquema avassalador de produtos derivados contribui para tornar esses seres imaginários entidades onipresentes, ganhando status de quase figuras reais. Junto com os quadrinhos são lançados filmes, álbuns de figurinhas, desenhos animados, bonecos, camisas, cadernos e todo tipo de produto industrial para o deleite do leitor e colecionador.

A esta força impetuosa, os autores locais respondem com o que lhes é mais caro, sua identidade. Os quadrinhos estrangeiros, para possibilitar a massificação, utilizam uma linguagem universal. São as piadas familiares, de costumes comuns às sociedades ocidentais, de situações pitorescas que podem ser encontradas em qualquer grupo social (o desempregado, o jogador, a criança traquina, as relações de poder no lar). O humor local é trabalhado a partir de um código lingüístico particular, pertencente aos que vivenciam uma cultura ou situação determinada. Normalmente é um humor de difícil tradução, pois requer o conhecimento de elementos indissociáveis da vivência quotidiana.

Os brasileiros exploram muito bem esse tipo de humor, impulsionados que foram por uma situação limite. A propagação das tiras no país se deu exatamente no período do regime ditatorial, entre as décadas de 1960 a 1980, quando despontaram inúmeros cartunistas com tiras de teor político, fazendo uma leitura crítica da realidade. Esse tipo de humor não se restringiu às tiras de jornais, mas se expressou na criação do jornal Pasquim , ícone de jornal alternativo, questionador e humorístico, que por sua vez influenciou um sem números de autores espalhados por todo canto do país.

Se temos um elenco memorável de personagens, como as impagáveis As Cobras , de Veríssimo, Rango , de Edgar Vasques, O Pato , de Ciça, O Menino Maluquinho , de Ziraldo, Chico Bento , de Maurício de Sousa, Rê Bordosa , de Angeli, O condomínio , de Laerte, Aline , de Adão Iturrusgarai, Níquel Náusea , de Fernando Gonsales, Xaxado , de Cedraz, as tiras brasileiras se ressentem ainda de um esquema de distribuição que as torne efetivamente presentes em todos os estados. O sistema de distribuição dos syndicates – que continua presente em nossos jornais – foi tentado para a massificação de nossas tiras, mas as iniciativas carecem de profissionalismo que as consolidem.

Fora do meio comercial, outras manifestações são tentadas pelos novos autores, com a edição de seus fanzines e a publicação das tiras nos jornais de suas cidades. São meios de se fazer conhecer, de difundir, ainda que precariamente, a produção realizada fora dos centros industriais do país. Mesmo nesses centros, onde os jornais vêm reduzindo a importância o interesse e pelas tiras, grupos de artistas se reúnem em cooperativas para o lançamento de livros e revistas. Esse tipo de produção independente é o caminho que se apresenta como viável para o fomento e continuidade da criação das tiras nacionais.

O livro Humor em pílulas: a força criativa das tiras brasileira s, de Henrique Magalhães, trata desses assuntos relacionados às tiras, captando o interesse crescente do meio acadêmico em seu estudo. Sendo o autor também criador – com sua personagem Maria , publicada por décadas nos jornais paraibanos e em revistas e álbuns – sua preocupação se volta à pesquisa sobre o tema, bem como à produção editorial à frente da editora Marca de Fantasia, que tem uma coleção de livros de tiras.

H. Magalhães

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Se Toque: uma revista Alternativa
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