Entrequadros:
Algumas entrevistas sobre quadrinhos
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Entrequadros: Algumas entrevistas sobre quadrinhos
Wellington Srbek
Série Quiosque nº 5.
João Pessoa: Marca de Fantasia, 2004, 64p, 12x18cm
ISBN 85-87018-36-1
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A história dos quadrinhos no Brasil é uma história de resistência e luta. A busca identitária de seus personagens (a maioria desenraizada de sua cultura natal ou simulacros de personagens estrangeiros), esbarra no desinteresse dos leitores, adestrados pela indústria cultural, e particularmente no descaso das editoras, que investem num mercado de lucro fácil.
Os autores, por sua vez, ressentem-se de um espaço próprio para sua expressão e desenvolvimento. Sem investimento não há produção, sem produção não há amadurecimento. O que esperar, então, da formação dos autores nacionais? O objetivo de se chegar ao mercado parece que não há perspectiva, embora o mercado seja o caminho natural para a cultura de massa.
Muitas iniciativas já foram tentadas para se encontrar o espaço de visibilidade e profissionalismo para nossos quadrinhos, de leis que garantam uma reserva de mercado à formação de cooperativas, da fundação de pequenas editoras à bravura do mano-a-mano , com a venda direta aos leitores, bem no estilo e estratégia da geração mimeógrafo .
Trilhando seu próprio caminho, temos uma legião de novos autores que só conseguem se mostrar por intermédio da edição de fanzines e edições independentes. Cada vez mais prolíferas, essas publicações enfrentam o desafio da descontinuidade, do círculo de iniciados e o limite das pequenas tiragens, que não propiciam aos autores mais que as contingências da produção amadora.
Malgrado os percalços do mercado, em termos de conteúdo os quadrinhos brasileiros são abrangentes, indo do universo infantil das personagens de Maurício de Sousa – único investimento dos quadrinhos de massa nacionais que realmente funcionam – ao filão do terror, de décadas passadas; da ficção científica a super-herói, da cultura popular e regional ao humor. Um universo criativo tão amplo merece uma reflexão aprofundada que aponte as razões para seu ostracismo e, principalmente, para a compreensão da força que move sua visceral resistência.
É a partir desses questionamentos que Wellington Srbek, pesquisador exímio que dedicou seu mestrado e doutorado à investigação sobre as histórias em quadrinhos, realiza uma série de entrevistas com autores brasileiros representativos de vários momentos de criação e processos de produção, traçando um importante painel não só histórico e raro, mas, sobretudo, por instigarem a reflexão.
Num país onde a leitura é um hábito elitizado, um livro com entrevistas sobre quadrinhos, um assunto ao mesmo tempo popular e marginalizado, é uma proeza que mostra bem o quanto se tem ainda a trilhar para que se atinja um estágio razoável de reconhecimento e valoração de uma arte secular.
H. Magalhães |