Cafuçu: uma sátira de carnaval
Cafuçu: uma sátira de carnaval
Henrique Magalhães
Série Veredas, nº 22
João Pessoa: Marca de Fantasia, 2011. 105p. Ebook (pdf). R$5,00.
978-85-7999-021-2
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Em 1990 um grupo de artistas da Paraíba reuniu-se para fundar o Cafuçu, bloco carnavalesco que tem no frevo sua essência e na fantasia sua expressão. Inspirado nos antigos blocos da cidade, o Cafuçu procura resgatar um carnaval popular e participativo, onde os foliões divertem-se em torno de pequenas orquestras e se deixam arrastar pelas ruas estreitas e enladeiradas do Centro Histórico da capital.
O bloco Cafuçu apresenta, sem dúvida, uma trajetória extraordinária. De pequeno agrupamento de amigos, numa brincadeira despretensiosa, o bloco transformou-se numa grande festa popular. Inicialmente saindo nas ruas do Cabo Branco e Tambaú, em João Pessoa, logo mudou-se para o abandonado Centro Histórico, levando uma profusão de luz e alegria às ruas onde se brincavam os antigos carnavais.
Além de contribuir para a revalorização desse sítio, uma nova emoção tomou conta dos foliões, extasiados com a beleza arquitetônica da cidade velha – ainda que degradada –, com suas ladeiras e raparigas da Rua da Areia a debruçar-se nas janelas e mostrar-se nos umbrais dos decadentes cabarés. A apoteose aconteceria na Praça Antenor Navarro, dando vida a sua restauração. A grande empatia do povo com a proposta do bloco redimensionou o conceito de carnaval popular, transgredindo padrões culturais e sociais numa celebração do espírito carnavalesco marcado pelo desígnio de por o mundo pelo avesso.
Cafuçu é um termo oriundo da cultura popular para designar um sujeito ignorante, roceiro, mal arrumado, mal educado e asselvajado. Para o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, o cafuçu pode representar até mesmo a figura do diabo, sendo mais comumente associado ao indivíduo sem qualquer qualificação, sujeito preguiçoso e inútil, tipo deselegante, mal-ajambrado, que é atarracado ou tem algum defeito físico.
Vivendo uma permanente transição, onde a concepção do bloco é constantemente problematizada, os organizadores do Cafuçu esforçam-se por passar uma visão clara do que desejam, da função e do papel do bloco para que este não se restrinja à eventualidade do carnaval. Desse modo, a definição de Cafuçu evolui do tipo "brega" que o caracterizou no início – vide a música que sintetizou o tipo: "cabelo com brilhantina, duas lapadas de pinga, pente no bolso, no corpo muita ginga..." – para uma definição mais ampla, que não se fixe num único tipo. O importante é incentivar o imaginário das pessoas, para que elas vistam suas fantasias.
Antes de dar nome ao bloco, o termo cafuçu era empregado por um grupo de amigos pra brincar entre si, para gozar com a cara de quem queria ser mais do que podia, de quem vivia de aparências. Foi com esse caráter irreverente e brincalhão que o bloco se propôs a satirizar aspectos pitorescos da cultura brasileira e popular, movido pelo espírito carnavalesco.
Este livro amplamente ilustrado traça os caminhos percorridos por esse original bloco de rua, suas mutações, derivações e impasses gerados por seu próprio engrandecimento. Os conceitos do termo e do bloco estão postos, numa tentativa de entender esse fenômeno de cultura popular que tem a sátira como motivação e força de expressão.
H. Magalhães
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