The paraibanos de subúrbio
The paraibanos de subúrbio
Laerçon
João Pessoa: Marca de Fantasia, 2004. 52p. 14x20cm. R$10,00.
ISBN 85-87018-29-9
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No universo das histórias em quadrinhos é fácil ceder ao gosto médio do público, bem como reverenciar as fórmulas estabelecidas. De outra forma, não teríamos tantos simulacros de super-heróis e quadrinhos japoneses embarcando nos clichês desgastados ou na onda do momento.
Laerçon segue na contra-mão da massa, optando por uma criação das mais originais e a quilômetros de qualquer tendência artística. O fato de ter seu trabalho voltado para o humor já demonstra uma escolha de um gênero não tão fácil quantos os demais. Para fazer tiras é preciso ter uma visão crítica aguçada, uma boa dose de ironia e, evidentemente, bastante humor. Ingredientes raros de se achar em confluência.
O trabalho de Laerçon passa mesmo ao largo das tiras que vemos na imprensa e nas publicações independentes. Ao invés do bom gosto, do traço rebuscado, do capricho no texto, Laerçon ignora todas as regras e nos apresenta garatujas quase esboçadas, o descuido com a língua, um show pirotécnico de palavrões e grosserias e um humor verdadeiramente histriônico, que não poupa nem as mais sagradas instituições. E é este humor radical que tem conquistado um público cativo, o público dos fanzines e revistas independentes, que são as pessoas mais argutas do meio.
Nas crônicas urbanas de Laerçon encontramos algumas personagens memoráveis, como The Paraibanos de Subúrbio, Zé Boy e Carta para Afras, que contam de maneira escrachada e irreverente as aventuras dos punks na selva urbana e outras figuras que habitam o submundo. Desbocados, amorais e iconoclastas, os Paraibanos de subúrbio chegam a gozar com o mito dos falsos profetas, ridicularizando os pregadores da atualidade na hilária HQ Jesus Cristo do Paraguai. É esse humor incondicional que compensa o tosco grafismo de Laerçon, que de certa forma já se tornou a marca indissociável das personagens.
Uma outra série memorável é dedicada ao reino animal, com a personagem O Pato de Botas, onde Laerçon mantém seu humor ferino com o domínio de linguagem que lhe compete. No seio de tantos quadrinhos pasteurizados e comerciais, e produções amadoras sem grandes afirmações autorais, Laerçon traz ventos benfazejos para a renovação de nossos quadrinhos e para a provocação do meio estabelecido.
H. Magalhães |