Marginal

 

Marginal
Shiko
Série Repertório nº 1.
João Pessoa: Marca de Fantasia, 2006. 52p. 14x20cm.
ISBN 85-87018-58-2

Desde a década de 1970, quando surgiram no cenário dos quadrinhos paraibanos alguns dos hoje renomados autores, a exemplo de Deodato Filho e Emir Ribeiro, não se tinha o lançamento de uma obra tão expressiva e inquietante. Shiko, ou Francisco José de Souto Leite, nascido em Patos em 24 de março de 1976, chega com suas histórias para provocar o leitor, levando-o necessariamente à reflexão.

Seguindo o mesmo e exclusivo caminho dos jovens autores nacionais, Shiko buscou nos fanzines seu próprio espaço pra publicação. Desde 1997 ele edita o fanzine Marginal, do qual saíram oito edições. As HQ deste volume são uma compilação de algumas das melhores histórias publicadas nesse fanzine.

Apesar da qualidade gráfica e textual do trabalho de Shiko, ele continua desconhecido além do circuito independente. Arredio ao mercado, desgarrado de qualquer instituição ou oficialidade, Shiko tem buscado o espaço alternativo dos fanzines para desenvolver sua obra com toda a liberdade e experimentação.

Autoditata, Shiko armazena uma bagagem cultural invejável. Desde cedo lia os clássicos da literatura mundial, de Rimbaud e Baudelaire a Marx, com predileção por biografias. Esse ecletismo lhe proporcionou descobertas de mundos jamais imaginados.

Além da leitura, mais três coisas lhe são essenciais: a música, o desenho e a rua. Da literatura e dos quadrinhos europeus captura as influências em seus quadrinhos. A música cria o clima para suas histórias, a cultura beat lhe serve de referência temática, a observação cuidadosa das ambientações da rua, dos hábitos, do vestuário, trazem elementos que enriquecem seu universo ficcional.

Considera os quadrinhos europeus como o que há de melhor, pela densidade dos personagens e elaboração das histórias. Admira também a HQ japonesa, que consegue de forma excepcional dar ritmo e dinamismo em suas seqüências e enquadramentos. Gosta de Frank Miller e da descontração dos quadrinhos ingleses. Aprecia o trabalho de Moebius. Dos quadrinhos nacionais, Watson Portela e Mozart Couto lhe são memoráveis. Dos roteiristas, destaca Jean Danton e José Duval. Desse caldo de tantas origens e tendências, confessa que sua maior influência vem mesmo dos quadrinhos nacionais.

Shiko apresenta processos de produção diversos, dependendo da situação e dos condicionamentos para a criação. Em geral, tem uma idéia básica da HQ, que vai desenvolvendo gradativamente, rabiscando o roteiro ao mesmo tempo em que desenha os personagens. Às vezes faz um único desenho que o impressiona e a partir deste passa à elaboração de uma história.

A expressão poética dos quadrinhos de Shiko, repletos de referências e inspirações literárias associadas a um traço impressionista, faz de seu trabalho um oásis em meio a tanto pastiche produzido pelos jovens autores nacionais. Além de quadrinhos, Shiko produz story board, ilustração de livros e publicitária. Apesar do reconhecimento de seu trabalho no meio gráfico paraibano, com uma autocrítica aguçada, Shiko acha que seu trabalho está apenas começando, o que nos parece um ótimo sinal.

H. Magalhães

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