Rapidez no discurso social
O incansável quadrinista Marcio Baraldi nos oferece mais um de seus trabalhos inconfundíveis. O álbum Rap Dez traz algumas dezenas de histórias do primeiro personagem rapper dos quadrinhos, que empresta seu nome à obra. Trata-se de um personagem negro – ou afrodescendente, para falar politicamente correto – que narra vários aspectos dos problemas políticos e sociais em forma de um discurso poético ilustrado, emulando o ritmo do rap.
Rap Dez é a coletânea de pequenas histórias de uma página publicadas originalmente na revista Viração desde 2003, tratando de problemas de discriminação racial e sexual, de latifúndio e “sem terras”, da questão indígena e ecológica, de gravidez indesejada e contracepção, do conflito israelo-palestino à paz mundial, com a atualidade que chega à “primavera árabe”, com a revolta do povos árabes contra os regimes ditatoriais. São temas de importância inequívoca, que atingem de forma certeira o público jovem a quem se destina.
O público de Rap Dez é o da revista Viração, que vem a ser um projeto social com apoio do Ministério da Cultura, da Unicef e da Unesco. A revista conta com a participação direta de jovens secundaristas e universitários na sua pauta e produção, organizados em conselhos de jovens - os Virajovens - espalhados por 22 estados do país. Isto garante a integração e promove a diversidade temática da revista.
Um dos pontos fortes do trabalho de Baraldi é esse engajamento político e social tão fundamentais em nosso tempo. A forma estratégica como as histórias são criadas, em consonância com as preocupações agendadas pelos próprios jovens resulta na empatia que emana do personagem. Outro destaque é a já característica estética psicodélica das obras do autor, que utiliza o contraste de cores fortes como elemento que se aproxima da estética do grafite, que é outro dos pilares da cultura Hip hop, tão comum aos jovens das periferias das grandes cidade.
Desse modo, num exercício de comunicação dirigida, que fala a linguagem de seu público, Baraldi produz uma obra de cunho didático, mas sem cair no formalismo do discurso conformista. Ao contrário, apesar de tratar os temas de forma reducionista devido à limitação do espaço e ao repertório do público, o álbum incita à reflexão dos jovens, tocando em temas que os inquietam no cotidiano.
H. Magalhães |