Seção de resenhas sobre fanzines e outras revistas independentes


Miracleman: um outro mito ariano

Mitos, complexos e frustrações nas HQs

Márcio Salerno

Meu livro Miracleman: um outro mito ariano , publicado pela editora Marca de Fantasia, baseado em um título de super-herói que foi revitalizado por Alan Moore no início da década de 80 e, mais tarde, retomado por Neil Gaiman, até ser relegado a um limbo judiciário do qual parece que não vai sair tão cedo, gerou algumas polêmicas.

Uma destas polêmicas foi publicada, em forma de carta nas páginas do fanzine Top! Top! A outra foi publicada no BD Jornal , de Portugal. A obra recebeu seus elogios, claro, mas as críticas também fazem parte. Afinal, o que seria do azul se todo mundo gostasse do vermelho? A primeira em questão, de autoria de José Salles, de Jaú, SP, foi um pouco violenta e, a meu ver, não de todo válida, uma vez que se o autor da mesma tivesse passado da página 15 de meu livro, onde disse ter parado, assim que percebeu que eu mencionava Friedrich Nietzsche e seus escritos, teria percebido também que muito daquilo que ele afirma, eu mesmo o faço ao longo da obra. A segunda crítica, escrita por Edgar Smaniotto, filósofo e mestre em Ciências Sociais , é bem mais construtiva.

O cerne da questão, no que se refere às duas, é o fato de eu ter compreendido mal a filosofia de Nietzsche, o que faria com que meu livro estivesse bem mais próximo daquilo que o Nazismo fez de Nietzsche do que o real sentido que este filósofo alemão quis dar a seus escritos.

Não sou filósofo e posso me tornar alvo fácil quando me “atrevo” a ter idéias próprias a respeito de um dos ícones da Filosofia mundial. Entretanto, como afirmou Descartes, “ penso, logo, existo ”. Penso, vou continuar pensando e vou tirar minhas conclusões a respeito de seja lá o que for, mesmo que, no futuro, eu venha a mudar meu ponto de vista. Afinal, não pertenço a nenhuma “tribo”, mais que um Anarquista, me considero um Libertário e vou defender meu direito de ter opinião própria, assim como o seu, e o de quem quer que seja, até o último suspiro. E respeito, claro, as opiniões de Salles e Smaniotto.

Quanto a meu ponto de vista a respeito de Miracleman e tudo que aconteceu na saga, até esta ser cancelada e ir para o limbo, alvo de disputas mesquinhas, ali se encontra a minha opinião sim, mas não só. O primeiro ponto de vista a ser levado em consideração tem de ser, necessariamente, o de Alan Moore, que reescreveu a saga e deu ares de anos 80 à mesma (uma década bem dark , todos devem se lembrar). E a visão por ele oferecida ao Übermensch nesta saga em particular, e me desculpem os críticos, é EXATAMENTE aquela preconizada pelos nazistas, e não o “para além do homem”, de Nietzsche.

Isto fica claríssimo no número 7 da série publicada pela falida editora americana Eclipse Comics, quando um assecla do doutor Gargunza que, à época da 2ª Guerra Mundial, fazia parte da juventude hitlerista, encontra o super-herói. “ Übermensch , você veio!”, diz ele ao dar de cara com Miracleman, isto depois de ter lembrado aqueles dias com alguns colegas, afirmando que o herói o fazia pensar nas promessas nazistas de que uma nova raça, totalmente pura, substituiria a fraca humanidade. “Sim, eu vim. Agora, vocês já podem ir embora”, responde o herói, antes de atravessar o peito do alemão com o dedo.

Sei que muitas pessoas não leram a série completa, só quatro números foram lançados no Brasil e, lá fora, quando sites como o e-bay colocam as revistas americanas que restaram à venda, o fazem a preços bem módicos, como US$ 600, US$ 700, US$ 1.000, e por aí vai. Mas a história está lá, e aquele sujeito super-poderoso, loiro, branco, de cabelo cortado à escovinha, não é o “para além do homem” de Nietzsche, é o deus ariano de Adolph Hitler! Quer dizer, se alguém distorceu os preceitos de Nietzsche ao rever a série, em primeiro lugar, foi mister Alan Moore. E não dá para fugir deste fato, certo? Afinal, meu livro versa sobre o Miracleman, não Friedrich Nietzsche.

Provavelmente, o que estou escrevendo aqui vai gerar muita polêmica também, mas até aí, isto é bom. Se a obra mexe com o imaginário, é sinal que está cumprindo seu papel, n'est-ce pas ?

Só para terminar, e aqui entra em foco aquilo que eu penso mesmo, não as elucubrações de Nietzsche, Moore, Gaiman, etc., é claro que o alemão bigodudo (por sinal, meu filósofo preferido, junto com Gilles Deleuze, por razões que não cabem aqui explicar) utilizou seu conceito de Super-Homem para caracterizar qualquer indivíduo, baixo, gordo, magro, feio, seja lá como for, que se disponha a superar as características comuns aos demais homens. Afinal, era o que ele, pessoalmente, queria fazer.

Agora, dizer que Nietzsche, baixo, feio ‘pra xuxu', extremamente doente, complexado até não poder mais pelo fato de não conseguir ser amado e desejado pelas mulheres, nem quando era jovem, ou seja, o famoso “comeninguem”, não deixou vazar um pouco que seja de suas frustrações em seus livros...? He! he... Duvido! (E aqui eu só estou sendo Humano, Demasiadamente Humano ).

Miracleman: um outro mito ariano
Márcio Salerno.
Série Quiosque, nº 6.
João Pessoa: Marca de Fantasia, 2004. 64p. 12x18cm.
ISBN 85-87018-38-8

Márcio Salerno é jornalista, artista plástico, escritor e tradutor. Entre seus outros livros encontram-se Homem invisível: o fantasma de William Lee , Editora Aberta, e Pequenas atrocidades: sonhadas, vividas & imaginadas , Editora Daikoku.


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