Marca de Fantasia: resistência que se renova

Para se fazer um balanço justo da produção da editora Marca de Fantasia em 2008 não se pode deixar de notar uma evidente irregularidade na freqüência dos lançamentos, com alguns meses com mais de um título vindo à luz e outros de verdadeira inércia, principalmente no início do segundo semestre. Contudo, deve-se reconhecer que sua meta foi alcançada plenamente, atingindo os 12 títulos que se havia proposto. Em comparação com anos anteriores, quando se chegou a lançar quase dois títulos por mês, este parece um ano magro, mas foi esta performance a mais realista para dar continuidade ao trabalho editorial, que continua tendo uma produção artesanal.

A Marca de Fantasia não é uma editora comercial, com linha de produção, distribuição e venda em livrarias. Como editor, ao modo de um Quixote pós-moderno, insisto no processo manual de confecção das publicações, na pequena tiragem e na venda dirigida pela internet, para alcançar o menor custo de produção e oferecer o menor preço ao público.

Para o desenvolvimento da editora é fundamental o interesse do público, ávido por novas propostas em quadrinhos e textos teóricos e a demanda de autores a espera de uma oportunidade para publicação. Essa confluência é catalisada pela editora, que propõe edições de baixo custo, mas procurando oferecer uma apresentação profissional.

Se por um lado considero nosso trabalho um êxito editorial na proporção do que foi estabelecido, por outro todo o esquema de produção, desenvolvido por um único indivíduo, chega a ponto de saturação. Desse modo, a meta de edição de um livro por mês nos parece bem mais razoável para garantir a continuidade do projeto editorial e a qualidade da produção.

Álbuns e revistas em quadrinhos

Em 2008 o fanzine Top! Top! teve mais uma edição, a 24ª, com enfoque no trabalho do cartunista Marcio Baraldi. A trajetória do artista multimídia Baraldi, seu modo de produção, sua história e pensamento, em particular no que diz respeito ao mundo dos quadrinhos, é o que nos revela a entrevista exclusiva desta edição, que vem acompanhada de vários cartuns e quadrinhos do autor. Como de praxe, apresentamos o balanço das atividades da editora Marca de Fantasia no ano anterior, além da publicação de artigo sobre os quadrinhos pernambucanos, quadrinhos de Edgard Guimarães e as tradicionais seções Chamada Geral , de resenhas e Lero-lero , de cartas.

A Coleção Corisco, que propõe a veiculação de quadrinhos autorais em formato de revista, trouxe mais uma edição com forte impacto temático e visual. Metrópoles é uma série de histórias em quadrinhos escritas por Leonardo Santana e desenhadas por Maurício Fig. São pequenas narrativas centradas no quotidiano das grandes cidades que expõem de forma instigante o complexo jogo de interesses e relacionamentos de seus habitantes. É uma obra simples e por isso mesmo plena de significações. É uma prova de que os quadrinhos podem falar de nossa gente, nossos costumes sem mergulhar nos clichês ou apelar para regionalismos e muito menos copiar fórmulas importadas e desgastadas.

Outro trabalho de fôlego é o que nos apresentou Maxx Figueiredo, com Happy Slap! Crônicas anacrônicas de Maxx Figueiredo . Este álbum traz a representação densa da obra desse autor, que chega ao limite da experimentação gráfica e da ousadia textual. Em suas histórias em quadrinhos Maxx trabalha ao mesmo tempo com o traço caricatural, a pintura, a fotografia, a escultura, meios tons e chapados, tudo guiado por um texto poético lúcido e coerente. As histórias corroboram sua visão crítica enfocando questões sociais e dramas pessoais num universo urbano claustrofóbico e, mesmo assim, fascinante e bem humorado.

Mais um título da Coleção Das tiras coração foi lançado em 2008. Dessa vez com a retomada de Macambira e sua gente , de minha autoria, já lançado em álbum, mas que se encontrava fora do catálogo. Esta nova edição traz mais páginas, com novas histórias em quadrinhos das personagens. Os personagens da série são tipos que freqüentemente são discriminados pela sociedade, seja pela opção sexual, seja pela opção profissional, seja pela opção religiosa. E embora o universo tratado na série – a homossexualidade – não seja o usual nas tiras de quadrinhos, o que torna esta série diferente é a maneira como as personagens adquirem personalidade.

Macambira e sua gente , que já se encontra na 3ª edição, foi contemplado com o Troféu Bigorna como melhor álbum/livro de humor do ano. O troféu é uma promoção do Bigorna.net , o mais importante sítio dedicado aos quadrinhos brasileiros.

Ainda como lançamento de quadrinhos tivemos a seqüência da Coleção Biografix com No rastro de Masamune , de Luiz Saidenberg. Este álbum reúne dois capítulos de uma saga sobre o universo dos samurais, sendo que a primeira parte fora publicada pela Opera Graphica com o título Na trilha de Masamune . A segunda parte A Volta de Masamune é inédita, completando a aventura do guerreiro. Veterano das Histórias em Quadrinhos brasileiros, Saidenberg mostra com maestria o domínio narrativo e a expressividade de seu desenho tão rico em detalhes. A Coleção Biografix propõe o resgate ou apresentação de quadrinhos clássicos dos grandes autores nacionais.

Ensaios sobre quadrinhos e culturas midiáticas

A vertente da editora que mais tem se projetado e conquistado a atenção dos leitores é, sem dúvida, a dos livros teóricos, demonstrando a grande lacuna no país no que tange a reflexão sobre os quadrinhos e as culturas midiáticas, incluindo o jornalismo e a cultura pop. Se já temos inúmeros estudos sobre esses temas em outros países, ainda é tímida a produção editorial nacional. Paradoxalmente, é cada vez maior o interesse dos estudantes e professores universitários em se debruçar sobre diversos aspectos dos quadrinhos e de outras manifestações da cultura de massa.

A Coleção Quiosque , que apresenta pequenos ensaios em formato de livros de bolso, chega ao número 20, com uma nova edição do livro Falas & Balões: a transformação dos textos nas Histórias em Quadrinhos , de Marcos Nicolau. Este livro, um dos primeiros lançados pela Marca de Fantasia, teve uma grande acolhida e se encontrava esgotado. Esta segunda edição colocará novamente o conhecimento de Marcos sobre a transformação do texto nas Histórias em Quadrinhos à disposição dos leitores.

O texto constitui uma expressão própria em sua inter-relação com os elementos visuais. Bem mais que uma tradução literal da imagem, o texto nas Histórias em Quadrinhos se exprime por intermédio do discurso direto, do diálogo, de pensamentos e reflexões, além de outras formas narrativas exteriores ou vinculadas à ação. É dessas modalidades em permanente construção que trata o trabalho de Marcos Nicolau, dando ao texto a devida importância no seio das Histórias em Quadrinhos.

Cinco livros foram lançados pela Série Veredas , dedicada a Comunicação e Artes. Esta série teve um grande impulso motivado pela própria demanda dos autores, que apresentaram ótimos ensaios sobre os campos de estudo enfocados. De certo modo, como a editora é um projeto de extensão do Departamento de Comunicação da UFPB e que passa a compor o fluxograma do Mestrado em Comunicação, a Série Veredas vem dar vazão ao fluxo de produção de conhecimento que interessa aos estudantes e professores da área.

Desses textos temos O príncipe lê jornais: cotidiano e poder no jornalismo impresso , organizado pelo professor Wellington Pereira, que é fruto de seus estudos desenvolvidos com alunos no Departamento de Comunicação e Turismo sobre as expressões das mídias e sua relação com o cotidiano. Este volume conta com artigos dos alunos e do próprio organizador. 

Já Bráulio Tavares investiga em A pulp fiction de Guimarães aspectos curiosos e pouco estudados desse autor. Na obra de Guimarães Rosa existem janelas abertas para o insólito, o estranho, o bizarro, o inexplicável. O fantástico que ele nos mostra decorre menos do sobrenatural do que do extraordinário, do fora do comum. Braulio Tavares analisa neste livro os contos O recado do morro , Um moço muito branco , além de três contos fantásticos escritos por Rosa na juventude e até hoje não reunidos em livro.

Em O Sertão é coisa de cinema Matheus Andrade, de maneira didática e concisa, aponta como se constituiu o perfil do Nordeste como região da seca. Matheus traça um levantamento de quando e como o Sertão começa a ser representado no cinema brasileiro, suas primeiras aparições, as quais reverberam o discurso em questão sobre a região Nordeste; e faz um levantamento de filmes que abordam essa temática em suas narrativas, em perspectivas diversas. O autor propõe, sobretudo, questões outras a respeito da visibilidade sobre o Nordeste, pois todo esse espaço geográfico e imaginário não se resume à seca.

Marina Magalhães propõe Polarizações do jornalismo cultural um estudo sobre aspectos do jornalismo cultural praticado por nossa imprensa diária. O Jornalismo Cultural apresenta uma série de dicotomias que prejudicam o cumprimento de seu papel, fazendo-o cair na superficialidade ou no eruditismo, no desequilíbrio entre matérias sobre assuntos internacionais e locais, ou ainda errar a dosagem de temas considerados de “elite” e populares. Por meio de amostras dos cadernos culturais de O Norte , Jornal da Paraíba e Correio da Paraíba , jornais de maior circulação em João Pessoa, Marina analisa os desdobramentos dessas polarizações, para entender os pontos críticos que permeiam seu papel na contemporaneidade.

Compositor dos mais renomados da MPB, Zé Ramalho ganha uma biografia pelas mãos do escritor Isaac Soares de Souza: Zé Ramalho: o profeta do Terceiro Milênio . A música de Zé Ramalho é uma verdadeira miscigenação de ritmos e brasilidade, evocando os espíritos dylanianos , gonzagueanos e raulseixistas , além de uma forte mistura da Literatura de Cordel, dos violeiros nordestinos, do blues e do rock. Com a passionalidade de um verdadeiro fã, Isaac faz uma viagem pela obra musical e filosófica sertânica e apocalíptica de Zé Ramalho, o “Apolo da Caatinga”.

Encerrando a produção anual, fizemos um trabalho conjunto com o Mestrado de Comunicação da UFPB, sob a coordenação do professor Marcos Nicolau, também autor de trabalhos publicados pela Marca de Fantasia. Para reunir os artigos acadêmicos e resenhas no campo da Comunicação de das expressões culturais e midiáticas, o recém criado Mestrado em Comunicação da Universidade Federal da Paraíba lançou a primeira edição da revista Culturas Midiáticas , com textos que dão uma amostra das pesquisas realizadas por professores e alunos. Os temas abordados vão de mídias interativas a mini mídias, de jornalismo a linguagem cinematográfica, de jogos on-line a TV digital. A revista terá periodicidade semestral e faz parte do projeto editorial da Marca de Fantasia, que com esta edição se incorpora ao programa de pós-graduação.

H. Magalhães

As edições da temporada

Top! Top!
Editor: Henrique Magalhães. Nº 24. João Pessoa: Marca de Fantasia, janeiro de 2008. 44 p. 14x20cm. R$6,00


Metrópoles
Leonardo Santana & Maurício Fig. Coleção Corisco nº 6. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008. 40 p. 14x20cm. R$8,00


Happy Slap! Crônicas anacrônicas de Maxx Figueiredo
Maxx Figueiredo. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008. 84 p. 14x20cm. 
R$12,00


Macambira e sua gente

Henrique Magalhães. Coleção Das tiras coração nº 15. 3ª edição. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008. 60 p. 14x20cm. R$10,00


No rastro de Masamune
Luiz Saidenberg. Coleção Biografix nº 5. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008, 88p. 14x20cm. R$13,00.


Falas & Balões: a transformação dos textos nas Histórias em Quadrinhos

Marcos Nicolau. Coleção Quiosque  nº 20. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008, 68p. 12x18cm. R$11,00.

O príncipe lê jornais: cotidiano e poder no jornalismo impresso
Wellington Pereira (org). Série Veredas nº 4. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008. 100 p. 13x19cm. R$14,00.


A pulp fiction de Guimarães Rosa

Braulio Tavares. Série Veredas  nº 5. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008, 80p, 13x19cm. R$12,00.


O Sertão é coisa de cinema

Matheus Andrade. Série Veredas  nº 6. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008, 76p, 13x19cm. R$12,00.


Polarizações do jornalismo cultural

Marina  Magalhães. Série Veredas nº 7. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008, 80p. 13x19cm. R$12,00.


Zé Ramalho: o profeta do Terceiro Milênio

Isaac Soares de Souza. Série Veredas nº 8. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008, 88p. 13x19cm. R$13,00.


Culturas midiáticas

Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal da Paraíba. Editores: Henrique Magalhães e Marcos Nicolau. João Pessoa: Marca de Fantasia. Vol I, nº 1, jul/dez de 2008, 188p.

 

 

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