Marca de Fantasia - uma editora em perspectiva
A editora Marca de Fantasia, criada em 1995, resultou da experiência com a edição de fanzines e a fundamentação de alguns estudos acadêmicos. Fazem parte desse histórico a publicação entre as décadas de 1970 e 1990 de vários números da revista em quadrinhos Maria, dos fanzines Marca de Fantasia e Nhô-Quim, e a realização de Mestrado e Doutorado sobre o universo das publicações independentes.
A Marca de Fantasia busca prestigiar os novos autores brasileiros, favorecendo os trabalhos experimentais, críticos e reflexivos, além de estabelecer o intercâmbio com a produção independente de outros países. Seu processo de produção é artesanal, com pequenas tiragens progressivas, mas com o cuidado de uma boa qualidade gráfica.
Projeto editorial
O projeto da Marca de Fantasia não poderia se restringir a uma publicação. Como ocorre em outros países, a cena independente brasileira já busca realizar projetos editoriais mais estruturados, com revistas, álbuns e livros com qualidade profissional. Os autores e editores têm procurado se agrupar em cooperativas e associações, visando organização e planejamento.
A edição dos fanzines Marca de Fantasia e Nhô-Quim, bem como a troca de experiência com outros editores, motivou a criação de um projeto editorial mais complexo. Foi a partir da observação do mercado, com suas brechas no campo da edição de quadrinhos e outras expressões artísticas, que se pensou as linhas editoriais da Marca de Fantasia abrangendo três campos de atuação: revistas, álbuns e livros, sendo cada um destes subdvidido em várias séries.
Revistas
A revista Tyli-Tyli, que depois viria se chamar Mandala, marcou a cena das publicações independentes no Brasil como a única revista voltada para os quadrinhos de conteúdo poético. Havia em meados da década de 1990 uma forte produção de quadrinhos autorais com predominância da linguagem poética e conteúdo “filosófico”, intimista ou metafísico, seja na expressão textual, seja na representação visual. Flávio Calazans, que emprestou o nome de sua personagem para o título da revista, é um dos artífices dessa linguagem, ao lado de Edgar Franco e Gazy Andraus . O impacto da publicação que gerou estudos acadêmicos e fomentou o surgimento de outros autores. A revista chegou ao número 13, com o saldo de dezenas de autores publicados e várias expressões gráficas pessoais.
Com o desenvolvimento do projeto da editora, outras revistas foram criadas, como a Maria Magazine, voltado aos quadrinhos humorísticos, em particular as tiras; a revista Quiosque, trazendo um olhar crítico sobre as mídias; e a série Corisco, de revistas com histórias em quadrinhos curtas ligadas a um tema ou autor. A série Corisco permanece até hoje, com belos trabalhos autorais. A partir de 2009 a editora incorporou o título Artlectos e Pós-Humanos, de Edgar Franco, outrora prublicado pela SM Editora, de José Salles. A revista deixa campo livre para as experimentações do universo particular da obra de Edgar.
Na categoria Revistas incluímos o fanzine Top! Top!, que presta homenagem a Henfil ao utilizar como título a célebre onomatopéia – top! top! – pupularizada pela personagem Fradim. De caráter jornalístico, o fanzine apresenta resenhas, textos analíticos, cartas dos leitores e entrevistas, além de quadrinhos de novos autores e o resgate do trabalho dos veteranos; o intercâmbio com produtores e publicações de outros países possibilita o conhecimento de novas expressões dos quadrinhos, a exemplo da obra de artistas portugueses, cubanos e argentinos, já publicados no fanzine.
Desde sua fundação a Marca de Fantasia constituiu-se como uma atividade do Grupo Artesanal – entidade sem fins lucrativos sediada em João Pessoa –, e como projeto de extensão do Departamento de Comunicação da UFPB. Em 2008 a editora migrou para o Programa de Pós-Graduação em Comunicação dessa Universidade, onde vem contribuindo com sua experiência editorial. Junto ao Mestrado em Comunicação, abrigou a revista acadêmica Culturas Midiáticas, além de Conexões Midiáticas, revista eletrônica dirigida pelos mestrandos.
Álbuns
Os álbuns apresentam as obras mais densas, podendo ainda trazer coletâneas de cartuns ou quadrinhos de vários gêneros: ficção científica, poéticos, humorísticos e aventuras. A encadernação e o acabamento requintado caracterizam o álbum, diferenciando-o do fascículo ou revista. Além de vários títulos avulsos já lançados, foi criada neste formato a série Biografix, para abrigar o resgate do trabalho dos mestres dos quadrinhos brasileiros. Esta série é coordenada conjuntamente com o quadrinista mineiro Wellington Srbek. A série Repertório, criada em 2009, agrupará os novos títulos e as reedições dos álbuns avulsos.
Uma categoria particular de álbuns é a série Das tiras coração, editada em parceria com Edgard Guimarães, onde cada livro reúne um conjunto de tiras autorais. Nos jornais locais de várias cidades circulam tiras de autores praticamente desconhecidos no resto do país. Muitas dessas tiras, na maioria das vezes, não circulam nem nos fanzines, ficando restritas ao seu local de criação. Esta série foi pensada para dar visibilidade ao trabalho desses artistas e fazer o registro dessa produção.
Livros
Outros interesses também foram contemplados no projeto da Marca de Fantasia, como a edição de livros com ensaios voltados à cultura pop e as Histórias em Quadrinhos. Além dos títulos avulsos, esta linha de produção viria se consolidar com a série Quiosque, de livros de bolso, alcançando grande interesse do público e do meio acadêmico.
A lém da série Quiosque, temos também a série Veredas, de ensaios com enfoque em Comunicação e Artes. Esta série, em particular, atende à demanda dos estudos acadêmicos e promove o lançamento de trabalhos de alunos e professores em nível de graduação e pós-graduação.
Pensando atualmente, mas com uma visão de futuro, a editora começou em 2009 a publicar versões eletrônicas de seus livros - os chamados e-books -, disponibilizando-os gratuitamente em seu sítio na internet. O objetivo é a experimentação de novas linguagens visuais e editoriais, bem como a difusão irrestrita de suas obras. Os e-books não vêm para substituir as edições impressas, mas para oferecer novas possibilidades de acesso e leitura. Algumas obras, contudo, serão veiculadas exclusivamente em arquivo eletrônico, possibilitando a ampliação e exprolação de outros campos de estudo.
Camaradas
A rubrica Camaradas põe em prática um hábito antigo dos editores de fanzines: a troca de publicações. Esta prática foi retomada pela Marca de Fantasia com outro parâmetro, ou seja, o de estimular a difusão e venda da produção dos editores independentes. As publicações de outros autores são trocadas pelo correspondente em exemplares ou em valor de venda dos títulos da Marca de Fantasia, sendo disponibilizadas no sítio da editora. Isto tranforma a Marca de Fantasia numa livraria virtual, concentrando boa parte das obras dos editores independentes num único sítio e facilitando seu acesso aos leitores.
Nosso compromisso
A proposta da editora Marca de Fantasia contempla, portanto, as vertentes mais importantes dos quadrinhos independentes no Brasil, que vêm sendo menosprezadas pelas editoras comerciais: fanzine - ou revista de conteúdo jornalístico; revista de quadrinhos poéticos; coleção de livros de tiras; álbuns de quadrinhos e ensaios sobre quadrinhos, cultura pop, Comunicação, Linguística e Artes. A preocupação conceitual está na base do projeto editorial da Marca de Fantasia, que desenvolve um trabalho sem interesses comerciais, mas com o objetivo de divulgar e estimular a produção cultural no país.
Henrique Magalhães - Editor
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